Continuando....nossa reflexão anterior.
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Viagem de Damasco para Palmira (Atual Tadmor) |
No livro “Paulo e Estevão”, Emmanuel
continua descrevendo a trajetória de Saulo:
De Damasco
Saulo vai para Palmira e lá
encontra seu antigo mestre de Jerusalém, Gamaliel; este lhe deu uma cópia integral das anotações de
Levi. Gamaliel a tinha ganhado diretamente de Pedro pela simpatia e
amizade que com este tinha feito nas visitas na Igreja do “Caminho”.
Depois da viagem de Damasco para Jerusalém
ele fez questão de passar em
Cafarnaum e ali interagir com o ambiente onde o Mestre tinha vivido e feito
suas pregações. Encontrou-se
pessoalmente com Levi, em Dalmanuta conheceu Madalena, visitou Nazaré e
depois chegou em Jerusalém.
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Palmira /Wikipédia |
Saulo depois de três anos de viagens voltou
a Jerusalém, e ali procurou a Igreja de Pedro. Ali se encontrava
João, Tiago, Filipe e Barnabé. Recebido
por Pedro e após os primeiros momentos de constrangimento
por ter sido o perseguidor dos membros daquela casa, Saulo
contou tudo que havia vivenciado na estrada de Damasco. Depois da relutância,
por alguns, de ser aceito ou não naquela instituição Saulo começou a fazer
parte como um servidor humilde na assistência daquela igreja.
Em
Jerusalém, diante dos conhecidos de
outrora da religião judaica, Saulo foi tido como demente por
estar divulgando uma nova doutrina diferente da tradicional das leis mosaicas.
Devido a isso, como podia ser preso, por conselho de Pedro, partiu para Cesareia.
Depois foi para Damasco para visitar sua
família. Seu pai, com formação
religiosa nas Leis de Moisés, não o compreendeu naquela nova vida devotado a Jesus e foi expulso da casa
paterna. Foi para Antioquia (Atual Antakia- Turquia)
Saulo permaneceu ali na igreja que fora
fundada por discípulos de Israel sob orientações de Pedro. Naquela igreja em noites determinadas ocorria o fenômeno de “vozes
diretas” e havia estudo organizado do Evangelho nos campos junto à natureza e
na margem do rio Orontes.
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Antioquia (Antakya)/Internet |
Ali em
Antioquia apareceu um médico jovem de nome Lucas que, após
entrar em contato com Saulo, ficou conhecendo o Evangelho de Jesus. Lucas viveu
junto àquela comunidade e foi absorvendo todo aquele novo aprendizado e depois,
por sugestão dele, foi adotado eles se chamarem de
“cristãos”, por serem seguidores de Cristo.
Após uma convivência com aquela
comunidade Lucas parte para a Grécia.
Barnabé,
discípulo de Pedro, responsável pela
aquela igreja de Antioquia, recebeu uma carta de Pedro onde este informou-lhe
que Tiago, filho de Zebedeu, tinha sido executado com uma
pena de morte determinada por Herodes. Tiago, que era irmão de João, trouxe de suas experiências da
Galiléia, junto a Jesus, a pregação entusiasmada do Evangelho, o que
desagradava as autoridades religiosas farisaicas.
Diante das perseguições, com dificuldades
financeiras para manutenção da Igreja de Jerusalém, Pedro solicitava ajuda à
Igreja de Antioquia. Barnabé reuniu recursos e se prontificou a levar a ajuda à
Pedro. Saulo se ofereceu para acompanhá-lo.
Quando
lá chegaram Pedro havia
sido preso, logo após a execução de Tiago, por ter pedido pessoalmente o cadáver de Tiago para poder
sepultá-lo. Foi neste
episódio que Pedro se livrou da cadeia libertado pela visita de um “anjo”.
Por prudência, Pedro tinha saído de Jerusalém e ido para a igreja de Jope; e
também João e Filipe haviam deixado Jerusalém.
Com
a ausência de Pedro, e para
a atividade da igreja ser tolerada pelas autoridades, Tiago filho de Alfeu, fez algumas
modificações nela: criou novas
disciplinas e não se podia falar do Evangelho sem se referir as Leis de Moisés;
e as pregações só poderiam ser ouvidas pelos circuncisos.
Com tantas modificações e por eles, Saulo
e Barnabé, não terem sido convidados para ficarem ali, foram se
hospedar na casa da irmã de Barnabé que se chamava Maria Marcos.
Ali se reuniram de forma oculta os irmãos do Evangelho dando prosseguimento as
atividades da antiga igreja de Jerusalém.
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Jerusalem/Internet |
Maria
Marcos, que tinha aberto sua casa para as reuniões evangélicas e
assistência aos necessitados,
manifestou
seu desejo de entregar seu filho João Marcos, que ainda era muito jovem e
adolescente, a Jesus. Seu filho, consultado por Saulo sobre aquele novo
propósito de vida, mostrou-se animado e preparado para o trabalho do Evangelho.
Então, ficou combinado que ele
partiria com seu tio Barnabé para a nova missão.
Partiram os três de retorno à Igreja de
Antioquia. Durante a viajem Saulo e Barnabé fizeram uma avaliação sobre a
situação da Igreja de Jerusalém e da obra de Jesus. Saulo
argumentou que não podiam restringir o Evangelho de Jesus somente na igreja de
Jerusalém porque após a morte de Pedro os inimigos do evangelho encontrariam
facilidade para deturpá-lo, era necessário leva-lo às outras terras.
Também propôs que fossem feitas anotações, por outros
discípulos, do que se conhecia sobre Jesus; pois sentia que muitas coisas não
foram registradas por Levi. Nas visitas as várias regiões para
divulgar o Evangelho montaria sua tenda e se manteriam com o trabalho de
artesão consertando e fabricando tapetes.
João
Marcos participou daquelas ideias e tomou a decisão de seguir o trabalho de
Jesus onde fosse necessário.
Barnabé, após expor as dificuldades da
Igreja de Jerusalém, e apresentar as ideias por ele e Saulo traçadas, recebendo
a aprovação dos membros da igreja de Antioquia partiram para a
cidade de Selêucia. Dali
embarcaram para Chipre, e lá visitaram sinagogas e várias cidades.
Barnabé, como chefe da missão, procurou divulgar o Evangelho, mas sempre com uma linguagem que não
chocassem tanto a tradição dos judeus locais.
Ainda naquela ilha visitaram a cidade de Nea-Pafos que era a sede do Governo
provincial; ali sendo bem
acolhidos organizaram reuniões em casas particulares atendendo doentes, órfãos,
sofredores e realizaram muitas curas impondo as mãos com preces a Jesus e
distribuindo água pura em nome em seu nome.
Devido a essas realizações Barnabé e Saulo
foram convidados a irem até a casa do
procônsul Sérgio Paulo que se encontrava doente. Saulo ao encontrar com
o procônsul tentou se lembrar de onde já tinha ouvido sobre o nome do
procônsul... aí reconheceu que estava diante do salvador de Estevão. Saulo, quando estava na Igreja de
Jerusalém, com Pedro, conheceu a história passada de Estevão quando este era
escravo na embarcação em que viajava Sérgio Paulo. Estevão ajudou a
curar o romano Sérgio Paulo e este ajudou a dar liberdade a ele.
Saulo se lembrando do ocorrido omitiu seu
conhecimento; e quando tomou a palavra para explicar para Sérgio Paulo sobre a
obra de Jesus, ao ser indagado de como a bondade de Jesus assistia a todos mesmo antes de conhecê-lo, e como ele
podia provar isso, começou a narrar que não era a primeira vez em que ele
estava muito doente, e que há dez anos atrás, quando viajava na embarcação e
estava gravemente enfermo ao ser abandonado pelos amigos, Jesus enviou-lhe um simples escravo para lhe ajudar na sua cura; e
narrou todos os detalhes que ocorreu naquela viagem na embarcação. Sérgio Paulo ficou muito impressionado e
reconheceu que os discípulos de Jesus traziam a notícia do Salvador.
Barnabé também ficou impressionado com a fé fervorosa com que Saulo falou sobre
Jesus. Outro fato importante no despertar do procônsul foi a
cura do mago judeu que há muito tempo estava
junto com ele tentando curá-lo. Este, durante a visita
dos discípulos, perdeu a visão e foi curado por Saulo.
Devido a esses acontecimentos, e sabendo do real objetivo dos discípulos, que era
expandir o Evangelho, o procônsul Sergio Paulo patrocinou a construção de uma igreja ali em Nea-Pafos. Também, Barnabé totalmente admirado pelos
feitos ali realizados por Saulo, que reconheceu estar ele iluminado pelo mestre
Jesus, propôs que seu nome fosse mudado
a partir dali. Saulo aceitando a sugestão, em
homenagem àquele feitor romano, mudou seu nome para Paulo.
Barnabé, Paulo e João Marcos permaneceram
alguns dias ali em Nea-Pafos; e apesar do jovem João Marcos desejar
servir a Jesus, ele ainda era fiel as tradições do Judaísmo.
Quando Paulo e Barnabé manifestou o desejo de levar o Evangelho para outras
regiões da Panfília ele ficou contrariado por achar que esta região era
habitada por pessoas muito ignorantes e era perigosa e cheia de ladrões. Mesmo contrariado João Marcos seguiu junto ao tio e a
Paulo para Atália. Ali pregaram a Boa Nova e distribuíram cópias do Evangelho.
Depois foram para outa cidade de
nome Perge; ali pregaram o evangelho e realizaram curas e distribuíram cópias
das anotações de Levi. Depois quando resolveram ir para
Antioquia da Pisídia, pois Paulo possuía intenso entusiasmo
e energia em querer levar o Evangelho de Jesus para muitos lugares,
João Marcos sentindo dificuldades,
diante da falta de recursos, para acompanhar as longas viagens manifesta o
desejo de voltar para Jerusalém.
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Viagem de Paulo e Barnabé/Internet |
Paulo e Barnabé prosseguiram sozinhos enfrentando
os desafios da viagem, dormindo ao relento, sendo assaltados tendo até mesmo as
cópias do evangelho e alimentos roubados.
Chegando em Antioquia de Pisídia alugaram um
quarto simples e Paulo conseguiu um trabalho de tecelão numa tenda. Ali
pregaram o evangelho e promoveram curas, mesmo sofrendo preconceito e ameaças
dos orgulhosos judeus fariseus. A nova palavra foi bem aceita entre os gentios
que eram a grande classe média do local.
Depois
foram para Icônio, Licaônia, Listra,
Derbe regressando para Perge, Atália,
Selêucia e Antioquia.
Após
inúmeras viagens onde em meio a aceitação de uns e rejeição de outros foram
formando as igrejas com agregação em suas tradições dos ensinamentos de Jesus
através das cópias de Levi. Até que Paulo chega a Roma levando a pregação da
Boa Nova de Jesus.
Não é minha intenção aqui
descrever toda a história das viagens de Paulo e o desfecho do martírio de cada
discípulo. Vocês poderão ler e estudar o livro: “Paulo e Estevão” – psicografado por Francisco Cândido Xavier, onde é mostrado todas as dificuldades de se
trazer a nova doutrina dentro de uma cultura milenar com tradição tão forte.
O livro descreve também sobre as “Cartas de Paulo” que posteriormente ele
escreveu para todas as igrejas formadas por eles dando novas
diretrizes a elas.
O objetivo da pequena síntese que fiz da
narrativa do espírito Emanuel sobre Paulo e Estevão foi de complementar o estudo
feito pelos teólogos quando descreveram que os registros dos Evangelistas não
foram feitos ao mesmo tempo.
Como vimos, o primeiro a registrar sobre a vida de Jesus foi Levi (Mateus), depois Lucas e Marcos tiveram acesso a esses registros e narraram conforme suas interpretações.
João, por ter vivido diretamente com Jesus, também fez seus registros com
novas descrições.
No livro percebermos que para o Evangelho
ser aceito ele teve que se adaptar à tradição judaica; principalmente em Jerusalém,
devido às perseguições, as pregações eram acompanhadas das escrituras antigas.
Graças aos esforços dos discípulos e seguidores de Jesus em divulgar a “Boa
Nova”, o Evangelho, é que hoje nós conhecemos sobre a vida de jesus e os seus ensinamentos. V. Lau
Continua...
Bibliografia:
“O Evangelho Segundo o Espiritismo” – Allan Kardec; tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. Araras, SP,IDE, 309 edição, 2005.
“BOA NOVA” – pelo Espírito Humberto de Campos – psicografado por Francisco Cândido Xavier – 37ª edição. FEB , Brasília 2013
"Paulo e Estevão": episódios históricos do Cristianismo primitivo: romance / pelo Espírito Emmanuel; [psicografado por] Francisco Cândido Xavier. - 45.ed. - 11. imp. - Brasília: FEB, 2017
Paris, 1864
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Allan Kardec |
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8. Deus
consola os humildes e dá forças aos aflitos que a pedem. Seu poder cobre a
Terra e, por toda parte, ao lado de uma lágrima Ele colocou um bálsamo
consolador. O devotamento e a abnegação são
uma prece contínua e encerram um ensinamento profundo. A sabedoria humana
reside nessas duas palavras. Possam todos os Espíritos sofredores compreender
essa verdade, em vez de clamarem
contra suas dores, contra
os sofrimentos morais que são o vosso quinhão neste mundo. Tomai,
pois, por divisa estas duas palavras: devotamento e abnegação, e
sereis fortes, porque elas resumem todos os deveres que a caridade e a
humildade vos impõem. O
sentimento do dever cumprido vos dará repouso ao espírito e resignação.
O coração bate melhor, a alma se asserena e o corpo já não sente
desfalecimentos, porque o corpo sofre tanto mais, quanto mais profundamente o
espírito é golpeado. – O Espírito de Verdade. (Le Havre, 1863.)
“O Evangelho Segundo o Espiritismo”
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Pedro Leopoldo (MG), 9 de novembro de 1940.
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Espírito Humberto de Campos |
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COMUNHÃO COM DEUS
As elucidações do Mestre, relativamente à
oração, sempre encontravam nos discípulos certa perplexidade, quase que
invariavelmente em virtude das
ideias novas que continham, acerca da concepção de Deus como Pai carinhoso e
amigo. Aquela necessidade
de comunhão com o seu amor, que Jesus não se cansava de salientar, lhes
aparecia como problema obscuro, que o homem do mundo não conseguiria realizar.
A esse tempo, os essênios constituíam um agrupamento de estudiosos das
ciências da alma, caracterizando as suas atividades de modo diferente, porque
sem públicas manifestações de seus princípios. Desejoso de satisfazer à
curiosidade própria, João procurou conhecer-lhes, de perto, os pontos de
vista, em matéria das relações da comunidade com Deus e, certo dia, procurou
o Senhor, de modo a ouvi-lo mais amplamente sobre as dúvidas que lhe
atormentavam o coração:
– Mestre
– disse ele, solícito –, tenho
desejado sinceramente compreender os meus deveres atinentes à oração, mas
sinto que minha alma está tomada de certas hesitações. Anseio por esta
comunhão perene com o Pai; todavia, as ideias mais antagônicas se opõem aos
meus desejos. Ainda agora, manifestando meu pensamento, acerca de minhas
necessidades espirituais, a um amigo que se instrui com os essênios,
asseverou-me ele que necessito compreender que toda edificação espiritual se
deve processar num plano oculto. Mas suas observações me confundiram ainda
mais. Como poderei entender isso? Devo, então, ocultar o que haja de mais
santo em meu coração?
O Messias, arrancado de suas meditações,
respondeu com brandura: – João, todas
as dúvidas que te assaltam se verificam pelo motivo de não haveres
compreendido, até agora, que cada criatura tem um santuário no próprio espírito, em que a
sabedoria e o amor de Deus se manifestam, por intermédio das vozes da
consciência. Os essênios levam muito longe a teoria do labor
oculto, pois, antes de tudo, precisamos considerar que a Verdade e o bem devem ser patrimônio de toda a
Humanidade em comum. No
entanto, o que é indispensável é saber dar a cada criatura, de acordo com as
suas necessidades próprias. Nesse ponto, estão muito certos quanto ao zelo
que os caracteriza, porque os unguentos reservados a um ferido não se ofertam
ao faminto que precisa de pão. Também eu tenho afirmado que não poderei ensinar tudo o que desejara
aos meus discípulos, sendo compelido a reservar outras lições do Evangelho do
Reino para o futuro, quando a magnanimidade divina permitir que a voz do
Consolador se faça ouvir entre os homens sequiosos de conhecimento.
Não tens observado o número de vezes em que necessito recorrer a parábolas
para que a revelação não ofusque o entendimento geral? No que se refere à comunhão de
nossas almas com Deus, não me esqueci de recomendar que cada espírito ore no
segredo do seu íntimo, no silêncio de suas esperanças e aspirações mais
sagradas. É que cada criatura deve estabelecer o seu próprio
caminho para mais alto, erguendo em si mesma o santuário divino da fé e da
confiança, onde interprete sempre a vontade de Deus, com respeito ao seu
destino. A comunhão
da criatura com o Criador é, portanto, um imperativo da existência e a prece
é o luminoso caminho entre o coração humano e o Pai de Infinita Bondade.
O Apóstolo escutou as observações do
Mestre, parecendo meditar austeramente. Entretanto, obtemperou: – Mas a oração deve ser louvor ou
súplica? Ao que Jesus respondeu com bondade: – Por prece devemos interpretar todo ato de relação entre o homem e Deus. Devido a isso
mesmo, como expressão de agradecimento ou de rogativa, a oração é sempre um
esforço da criatura em face da Providência divina. Os que apenas
suplicam podem ser ignorantes, os que louvam podem ser somente preguiçosos. Todo aquele, porém, que
trabalha pelo bem, com as suas mãos e com o seu pensamento, esse é o filho
que aprendeu a orar, na exaltação ou na rogativa, porque em todas as
circunstâncias será fiel a Deus, consciente de que a vontade do Pai é mais
justa e sábia do que a sua própria.
– E como ser leal a Deus, na oração? – interrogou o Apóstolo, evidenciando as
suas dificuldades intelectuais. – A
prece já não representa em si mesma um sinal de confiança? Jesus
contemplou-o com a sua serenidade imperturbável e retrucou: – Será que também tu não entendes? Não
obstante a confiança expressa na oração e a fé tributada à providência
superior, é preciso
colocar acima delas a certeza de que os desígnios celestiais são mais sábios
e misericordiosos do que o capricho próprio; é necessário que
cada um se una ao Pai, comungando com a sua vontade generosa e justa, ainda
que seja contrariado em determinadas ocasiões. Em suma, é imprescindível
que sejamos de Deus. Quanto às lições dessa fidelidade, observemos a própria Natureza,
em suas manifestações mais simples. Dentro dela, agem as Leis de
Deus e devemos reconhecer que todas essas leis correspondem à sua amorosa
sabedoria, constituindo-se suas servas fiéis, no trabalho universal. Já
ouviste falar, alguma vez, que o Sol se afastou do céu, cansado da paisagem
escura da Terra, alegando a necessidade de repousar? A pretexto de
indispensável repouso, teriam as águas privado o globo de seus benefícios, em
certos anos? Por desagradável que seja em suas características, a tempestade
jamais deixou de limpar as atmosferas. Apesar das lamentações dos que não
suportam a umidade, a chuva não deixa de fecundar a terra! João, é preciso aprender com
as Leis da Natureza a fidelidade a Deus! Quem as acompanha, no mundo, planta
e colhe com abundância. Observar a lealdade para com o Pai é
semear e atingir as mais formosas
searas da alma no Infinito! Vê, pois, que todo o problema da oração está em edificarmos o Reino
do céu entre os sentimentos de nosso íntimo, compreendendo que os atributos
divinos se encontram também em nós. O Apóstolo guardou aqueles
esclarecimentos, cheio de boa vontade no sentido de alcançar a sua perfeita
compreensão. – Mestre – confessou,
respeitoso –, vossas elucidações abrem
uma estrada nova para minha alma; contudo, eu vos peço, com a sinceridade da
minha afeição, me ensineis, na primeira oportunidade, como deverei entender
que Deus está igualmente em nós. O Messias fixou nele o olhar translúcido
e, deixando perceber que não poderia ser mais explícito com o recurso das
palavras, disse apenas: – Eu to
prometo. A conversação que vimos de narrar verificara-se nas cercanias de Jerusalém,
numa das ausências eventuais do Mestre do círculo bem-amado de sua família
espiritual em Cafarnaum. No dia seguinte, Jesus e João demandaram Jericó, a fim de atender ao programa de
viagem organizado pelo primeiro. Na excursão a pé, ambos se entretinham em admirar as poucas
belezas do caminho, escassamente favorecido pela Natureza. A paisagem
era árida e as árvores existentes apresentavam as frondes recurvadas,
entremostrando a pobreza da região, que não lhes incentivava o desenvolvimento.
Não longe de uma pequena herdade, o Mestre e o Apóstolo encontraram um rude
lavrador, cavando grande poço à beira do caminho. Bagas de suor lhe desciam
da fronte; mas seus braços fortes iam e vinham à terra, na ânsia de procurar
o líquido precioso. Ante aquele quadro, Jesus estacionou com o discípulo, a
pretexto de breve descanso, e, revelando o interesse que aquele esforço lhe
despertava, perguntou ao trabalhador: – Amigo,
que fazes? – Busco a água que nos
falta – redarguiu com um sorriso o interpelado. – A chuva é assim tão escassa nestas paragens? – tornou Jesus,
evidenciando afetuoso cuidado. – Sim,
nas proximidades de Jericó, ultimamente, a chuva se vem tornando uma
verdadeira graça de Deus. O homem do campo prosseguiu no seu trabalho
exaustivo; mas, apontando para ele, o Messias disse a João, em tom amigo: – Este quadro da Natureza é bastante
singelo; porém, é na simplicidade que encontramos os símbolos mais puros.
Observa, João, que este homem compreende que sem a chuva não haveria
mananciais na Terra, mas não para em seu esforço, procurando o reservatório
que a Providência divina armazenou no subsolo. A imagem é pálida; todavia,
chega para compreenderes como Deus reside também em nós. Dentro do símbolo,
temos de entender a chuva como o favor de sua misericórdia, sem o qual nada
possuiríamos. Esta paisagem deserta de Jericó pode representar a alma humana,
vazia de sentimentos santificadores. Este trabalhador simboliza o cristão
ativo, cavando junto dos caminhos áridos, muitas vezes com sacrifício, suor e
lágrimas, para encontrar a luz divina em seu coração. E a água é o símbolo
mais perfeito da essência de Deus, que tanto está nos céus, como na Terra.
O discípulo guardou aquelas palavras, sabendo que realizara uma aquisição de
claridades imorredouras. Contemplou o grande poço, onde a água clara começava
a surgir, depois de imenso esforço do humilde trabalhador que a procurava
desde muitos dias, e teve nítida compreensão do que constituía a necessária
comunhão com Deus. Experimentando indefinível júbilo no coração, tomou das
mãos do Messias e as osculou, com a alegria do seu espírito alvoroçado.
Confortado, como alguém que vencera grande combate íntimo, João sentiu que
finalmente compreendera.
“BOA NOVA”
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