quinta-feira, 7 de novembro de 2013

JESUS NA SAMARIA

Ilustração : Internet Jesus e a samaritana
    Allan Kardec, no "Evangelho Segundo o Espiritismo"  descreve sobre os Samaritanos na época de Jesus.
"Samaritanos – Após o cisma das dez tribos, Samaria tornou-se a capital do reino dissidente de Israel. Destruída e reconstruída várias vezes, ela foi, sob o domínio romano, a sede administrativa da Samaria, uma das quatro divisões da palestina. Herodes, chamado o Grande, a embelezou com suntuosos monumentos e, para lisonjear Augusto, deu-lhe o nome de Augusta, em grego Sebaste.
      Os samaritanos estiveram quase sempre em guerra com os reis de Judá. Aversão profunda, datando da época da separação, perpetuou-se entre os dois povos que evitaram todas as relações recíprocas. Os samaritanos, para tornarem mais profunda a cisão e não terem de vir a Jerusalém pela celebração das festas religiosas, construíram para si um templo particular e adotaram algumas reformas. Somente admitiam o Pentateuco, que continha a lei de Moisés, e rejeitavam todos os outros livros, que a esse foram depois anexados. Seus livros sagrados eram escritos em caracteres hebraicos da mais alta antiguidade. Aos olhos dos judeus ortodoxos, eles eram heréticos e, portanto, desprezados, anatematizados e perseguidos. O antagonismo das duas nações tinha, pois, por único princípio a divergência das opiniões religiosas, embora suas crenças tivessem a mesma origem. Eram os protestantes daquele tempo.
     Ainda hoje se encontram samaritanos em algumas regiões do Mediterrâneo oriental, particularmente em Nablus e em Jaffa. Observam a lei de Moisés com mais rigor que os outros judeus e só se casam entre si."
O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec- E-book - Amazon 



Fonte: Canal Mórmon

 Nesse episódio podemos observar a sensibilidade de Jesus em acessar os registros no plano mental do corpo espiritual da samaritana, onde narrou fatos íntimos da vida dela.
   Ela tinha boa vontade, mas devido a viver no meio de  divergências religiosas não sabia qual a melhor forma de  adorar a Deus.
  Jesus, aproveitando-se do momento em que lhe pediu água  oferece-lhe a água viva da vida, que vinha direto do amor infinito de Deus; e ensinou que o verdadeiro culto a Deus é a íntima comunhão entre o homem e o seu Criador.
   Devido ao grande amor e magnetismo de Jesus ela o compreendeu; mas, apesar de Jesus levar a mensagem a outros samaritanos, muitos desses, não o compreendeu.
V. Lau

Atualizado em: Natal (RN) 02/04/2016
João 4
Jesus entre os Samaritanos
1 Quando Jesus soube que os fariseus tinham ouvido dizer que ele fazia mais discípulos e batizava mais que João –(2) ainda que, de fato, Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos – (3) deixou a Judeia e retornou à Galiléia. (4) Era preciso passar pela Samaria.
(5) Chegou , então, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto da região que Jacó havia dado a seu filho José. (6) Alí se achava a fonte de Jacó. Fatigado da caminhada, Jesus sentou-se junto à fonte. Era por volta da hora sexta.
     (7) Uma mulher da Samaria chegou para tirar água, Jesus lhe disse: “Dá-me de beber!” (8) Seus discípulos haviam ido à cidade comprar alimento. (9) Diz-lhe, então, a samaritana: “Como, sendo judeu, tu me pedes de beber, a mim que sou samaritana?” (Os judeus, com efeito, não se dão com os samaritanos.) (10) Jesus lhe respondeu:
“Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: Dá-me de beber, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva!”
(11) Ela lhe disse: “Senhor, nem sequer tens vasilha e o poço é profundo; de onde, pois, tiras essa água viva? (12) És porventura maior que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do  qual ele mesmo bebeu, assim como seus filhos e seus animais?” (13) Jesus lhe respondeu:
“Aquele que bebe desta água terá sede novamente;
(14) mas quem beber da água que lhe darei, nunca mais terá sede.
Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele fonte de água Jorrando para a vida eterna”.
(15) Disse-lhe a mulher: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem tenha de vir mais aqui para tirá-la!” (16) Jesus disse: “Vai, chama teu marido e volta aqui”. (17) A mulher lhe respondeu: “Não tenho marido”. Jesus lhe disse: “Falaste bem: ‘não tenho marido’, (18) pois tiveste cinco maridos e o que agora tens não é teu marido; nisso falaste a verdade”.  (19) Disse-lhe a mulher: “Senhor, vejo que és profeta... (20) Nossos pais adoraram nesta montanha, mas vós dizeis: é em Jerusalém que está o lugar onde é preciso adorar”. (21) Jesus lhe disse:
Acredita-me, mulher, vem a hora em que nem nesta montanha nem em Jerusalém adorareis o Pai.
(22) Vós adorais o que não conheceis; nó adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.
(23) Mas vem a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, pois tais são os adoradores que o Pai procura.
(24) Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade”.
(25) A mulher lhe disse: “Sei que vem um Messias (que se chama Cristo). Quando ele vier, nos explicará tudo”. (26) Disse-lhe Jesus: “Sou eu, que falo contigo”.
(27) Naquele instante, chegaram seus discípulos e admiravam-se de que falasse com uma mulher; nenhum deles, porém, lhe perguntou: “Que procuras?” ou: “Que falas com ela?” (28) A mulher, então, deixou seu cântaro e correu à cidade, dizendo a todos: (29) “Vinde ver um homem que me disse tudo o que fiz. Não seria ele o Cristo?” (30) Eles saíram da cidade e foram ao seu encontro.
(31) Enquanto isso, os discípulos rogavam-lhe: “Rabi, come!” (32) Ele, porém, lhes disse: “Tenho para comer um alimento que não conheceis”. (33) Os discípulos se perguntavam uns aos outros: “Por acaso alguém lhe teria trazido algo para comer?” (34) Jesus lhes disse: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra.
(35) Não dizeis vós: ‘Ainda quatro meses e chegará a colheita’? Pois bem, eu vos digo: Erguei vossos olhos e vede os campos: estão brancos para a colheita. Já o ceifeiro recebe seu salário e recolhe fruto para a vida eterna, para que o semeador se alegre juntamente com o ceifeiro.
(37) Aqui, pois, se verifica o provérbio: ‘Um é o que semeia, outro o que ceifa’. (38) Eu vos enviei a ceifar onde não trabalhastes; outros trabalharam e vós entrastes no trabalho deles”.
(39) Muitos samaritanos daquela cidade creram nele, por causa da palavra da mulher que dava testemunho: “Ele me disse tudo o que fiz!” (40) Por isso, os samaritanos vieram até ele, pedindo-lhe que permanecesse com eles. E ele ficou ali dois dias. (41) Bem mais numerosos foram os que creram por causa da palavra dele; (42) e diziam à mulher: “Já não é por causa de teus dizeres que cremos. Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo”.
BÍBLIA DE JERUSALÉM – Nova edição, revista e ampliada. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. PAULUS – 2002 -  São Paulo.

Pedro Leopoldo (MG), 9 de novembro de 1940.

Espírito Humberto de Campos

     Descendo Jesus, de Jerusalém para Cafarnaum, seguido de alguns dos discípulos, nas suas habituais jornadas a pé, alcançou a Samaria, quando o crepúsculo já se fazia mais sombrio.
     Filipe, André e Tiago, estando com muita fome, deixaram o Mestre a repousar junto de uma pequena herdade e demandaram o lugarejo mais próximo, em busca de alimentos.
     O Messias, olhando em torno de si, reconheceu que se encontrava ao lado da fonte de Jacó. Envolvida nos revérberos do sol que ia ceder lugar às sombras da noite que se aproximavam, uma mulher acercou-se do antigo poço e observou que o Mestre lhe ia ao encontro, com a bela e costumeira placidez do seu semblante, e lhe pedia de beber.
     - Como, sendo tu judeu, me pedes um favor a mim, que sou samaritana? – interrogou surpreendida.
      Jesus descansou na interlocutora o olhar tranquilo e redarguiu: - Os judeus e samaritanos terão, porventura, necessidades diversas entre si? Bem se vê que não conheces os dons de Deus, porquanto, se houvesses guardado os mandamentos divinos compreenderias que te posso dar da água viva.
     - Que vem a ser essa água viva? – inquiriu a samaritana impressionada. – Onde a tens, se a água aqui existente é apenas a deste poço?! Acaso serias maior do que o nosso pai Jacó que no-lo deu desde o princípio?
     - Mulher, a água viva é aquela que sacia toda sede; vem do amor infinito de Deus e santifica as criaturas.
     E, envolvendo a samaritana no doce magnetismo de seu olhar, continuou:
     - Este poço de Jacó secará um dia. No leito de terra, onde agora repousam suas águas claras, a serpente poderá fazer seu ninho. Não sentes a verdade de minhas afirmativas, ante a tua sede de todos os dias? Não obstante levares cheio o cântaro, voltarás logo mais ao poço, com uma nova sede. Entretanto, os que beberem da água viva estarão eternamente saciados. Para esses não mais haverá a necessidade material que se renova a cada instante da vida. Perene conforto lhes refrescará os corações, pelos caminhos mais acidentados, sob o sol ardente dos desertos do mundo!...
     A mulher escutava, presa de funda impressão, aquelas palavras que lhe chegavam ao santuário do espírito, com a solenidade de uma nova revelação.
     - Senhor, dá-me dessa água! – exclamou interessada.
     - Mas ouve! – disse-lhes Jesus. E o Mestre passou a esclarecê-la sobre fatos e circunstâncias íntimas de sua vida particular, explicando-lhe o que se fazia necessário para que a sagrada emoção do amor divino lhe iluminasse a alma, afastando-a de todas as necessidades penosas da existência material.
     Observando que não havia segredos para Jesus, a samaritana chorou e respondeu:
     - Senhor, agora vejo que és de fato um profeta de Deus. Meu espírito está cheio de boa vontade e, desde muito, penso na melhor maneira de purificar minha vida e santificar os meus atos. Entretanto, é tal a confusão que observo em torno de mim, que não sei como adorar a Deus. Os meus familiares e vizinhos afirmam que é indispensável celebrar o culto ao Todo-Poderoso neste monte; os judeus nos combatem e asseveram que nenhuma cerimônia terá valor fora dos muros de Jerusalém. As discórdias nesta região têm chegado ao cúmulo. Ainda há pouco tempo, um judeu feriu um dos nossos, por causa das suas opiniões acerca da comida impura. Já que tenho a felicidade de ouvir as tuas palavras, ensina-me o melhor caminho.
     O mestre observou-a, compadecido, exclamou:
     - Tens razão. As divergências religiosas têm implantado a maior desunião entre os membros da grande família humana. Entretanto, o Pastor vem ao redil para reunir as ovelhas que os lobos dispersaram. Em verdade, afirmo-te que virá um tempo em que não se adorará a Deus nem neste monte, nem no templo suntuoso de Jerusalém, porque o Pai é Espirito e só em espírito deve ser adorado. Por isso, venho abrir o templo dos corações sinceros para que todo culto a Deus se converta em íntima comunhão entre o homem e o seu Criador!
      Suave silencio se fez entre ambos. Enquanto Jesus parecia sondar o invisível com o seu luminoso olhar, a samaritana meditava.

     Daí a alguns instantes, acompanhados de grande número de populares, chegavam os discípulos, admirando-se todos de encontrarem o Messias em conversação íntima com uma mulher. Nenhum deles, todavia, aventurou qualquer observação menos digna ou imprudente. Observando que o Messias se preparava para retirar-se em busca da aldeia mais próxima, a samaritana, eminentemente impressionada com as suas revelações, solicitou a presença de todos os seus familiares e vizinhos, afim de que o conhecessem e lhe ouvissem a palavra.
     Tiago e André haviam trazido pão e algumas frutas e insistiam com Jesus para que se alimentasse. O Mestre, porém, aproveitou o instante para mais uma vez ensinar o caminho do Reino, com as suas palavras amigas, compondo parábolas singelas. Muita gente se aglomerara para ouvi-lo. Eram viajantes que demandavam regiões diferentes, a par de grande grupo de samaritanos de opiniões exaltadas. A enorme assembleia se pôs a caminho, mas o Messias continuou espalhando as suas promessas de esperança e de consolação.
     Nesse ínterim, Filipe consultou os companheiros e, aproximando-se de Jesus, rogou-lhe carinhosamente:
     - Mestre, por favor, aceitai um pouco de pão! É indispensável cuidardes do sustento! Descansai e comei!...
     - Não te preocupes, Filipe – disse o Messias, com reconhecimento -, não tenho fome. Aliás, recebo um alimento que talvez os meus próprios discípulos ainda não puderam conhecer.
     - Qual? – atalhou o apóstolo, com interesse.
     - Antes de tudo, meu alimento é fazer a vontade daquele Pai misericordioso e justo que a este mundo me enviou, a fim de ensinar o seu amor e a sua verdade. Meu sustento é realizar a sua obra.
     - É verdade – observou o discípulo, olhando a multidão que os acompanhava -, vedes melhor os corações e não podemos perder esta oportunidade de divulgação da Boa Nova. Levaremos para Cafarnaum mais este triunfo, porque é incontestável que obtivestes aqui, entre os samaritanos, um dos nossos maiores êxitos!...
     Tiago e André ouviam, silenciosos, o diálogo.
     Às palavras entusiásticas do Apóstolo, o Mestre sorriu e acrescentou:
     - Não é isso propriamente o que me interessa. O êxito mundano pode ser uma ondulação de superfície. O de que necessitamos, em todas as situações, é entender o que o Pai deseja de nós. Como todo o seu anelo é o do bem, eu trabalho, mas sem me prender ao anseio das vitórias imediatas.
     E, dirigindo o olhar para a turba compacta de seus seguidores, exclamou para os companheiros:
     - Acaso poderemos admitir que já somos compreendidos? Calemo-nos por alguns instantes, a fim de ouvirmos a opinião dos que nos seguem os passos.
     Fez-se silêncio entre Ele e os três discípulos, de modo que podiam ouvir distintamente os diálogos travados entre os que os acompanhavam.
     - Acreditas que seja este homem o Cristo prometido? – perguntava um samaritano de boa figura aos seus amigos. – De minha parte, não aceito semelhante impostura. Este Nazareno é um explorador da piedade popular.
     - É certo – concordava o interpelado -, mesmo porque, em sua terra, não chega valer um denário. Pelos próprios parentes é tido como inimigo do trabalho e há quem duvide da sua preguiçosa cabeça.
     - É um louco de boa aparência – dizia uma mulher idosa para a filha - , pelo menos essa é a opinião que já ouvi de habitantes de Cafarnaum; entretanto, cá para mim, acredito seja um grande velhaco. Por que se meteu com pescadores, quando alega ser tão sábio? Por que não se transfere para Jerusalém, ou mesmo para o Tiberíades? Bem sabe a razão disso. Lá encontraria homens cultos que lhe confundiriam a presunção.
     Mais próximo de Jesus, um rapas sentenciava em voz discreta:  - Quando chegamos, foi Ele achado sozinho com uma mulher. Que te parece esta circunstância? – perguntava a um companheiro de caminhada.
     - Certamente desejava salvá-la a seu modo... – replicou com malicioso riso o inquirido.
     Num grupo vizinho, falava-se acaloradamente:
     - Este homem é um espertalhão orgulhoso – dizia, convicto, um velhote -, só faz milagres junto das grandes multidões, para que sintam virtudes sobrenaturais nas suas mágicas.
     - E não tem caridade – acrescentou outro -, pois ainda há pouco tempo, quando o procuraram em Cafarnaum para um sinal do Céu, fugiu para o monte, sob o pretexto de fazer orações.
     A noite começava a cair de todo. No alto já brilhavam as primeiras estrelas. Jesus sentou-se com os discípulos, à margem do caminho, para um momento de repouso.


     André, Tiago e Filipe estavam espantados com o que tinham visto e ouvido. Aparentemente, o Mestre fora aureolado de imenso êxito; entretanto, verificaram a profunda incompreensão do povo. Foi então que Jesus, com a serenidade de todos os instantes, os esclareceu cheio da sua bondade imperturbável:
     - Não vos admireis da lição deste dia. Quando veio, o Batista procurou o deserto, nutrindo-se de mel selvagem. Os homens alegaram que em sua companhia estava o espírito de Satanás. A mim, pelo motivo de participar das alegrias do Evangelho, chamam-me glutão e beberrão. Esta é a imagem do campo onde temos de operar. Por toda parte encontraremos samaritanos discutidores, atentos aos êxitos e referências do mundo. Observai a estrada para não cairdes, porque o discípulo do Evangelho não se pode preocupar senão com a vontade de Deus, com o seu trabalho sob as vistas do Pai e com a aprovação da sua consciência.
“Boa Nova” – pelo Espírito de Humberto de Campos – psicografado por Francisco Cândido Xavier. 36ª ed. Brasília: FEB, 2013.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Origem da Exclusão da Reencarnação

     
Concílio de Nicéia (Imagem: Wikipédia)
    Como está registrada na história, em vários períodos, a estrutura religiosa cristã formou-se com a aliança entre o poder imperial e o poder religioso, com o objetivo de domínio e imposição de poder, gerando com isso benefícios de interesses pessoais.
    Os Concílios, realizados pelos poderes imperiais e religiosos do passado, procuraram combater a diversidade de crenças e estabelecer uma única interpretação verdadeira da doutrina cristã.
     No panorama histórico da formação da fé cristã podemos perceber a dificuldade de interpretação dos registros antigos, devido à dúvida de suas autorias e distorções quanto às traduções. Por este motivo é que surgiram diversas seitas religiosas; com interpretações, dogmas e liturgias próprias.
   O ser humano tem uma forte tendência a se prender na forma exterior; em detrimento da essência. Isto porque, compreender o abstrato  é muito mais difícil quando não se usa o raciocínio livre de superstição e de crença imposta por representantes dos poderes temporais.
     Jesus iniciou a sua doutrina endereçada a mudança do pensamento e do sentimento humano. Trata-se de uma mudança do comportamento humano e a formação de uma ética que harmoniza a sociedade planetária. E, para a mudança deste comportamento, torna-se necessário o conhecimento das leis divinas com que Deus rege o universo. As revelações dessas leis sempre vieram de forma gradativa, e foram utilizados seres humanos dotados de capacidade para revelá-las (mediunidade). Eles recepcionaram essas revelações e as interpretaram conforme suas crenças culturais. A reencarnação é uma dessas revelações das Leis Divinas, e ela explica de forma lógica e racional o processo evolutivo das almas e a origem dos sofrimentos humanos.
      Se ela não é aceita em alguns segmentos cristãos é porque não está registrada nos seus livros canônicos. Os textos, abaixo, explicam porque foram retirados os registros que tratavam do tema reencarnação.
     Desde o estudo inicial do fenômeno mediúnico, a partir de 1857, com o Livro dos Espíritos, as revelações, de forma gradativa, vêm complementando as revelações do passado. As seitas religiosas que se prendem mais à forma do passado não conseguem aceitar que, as revelações atuais, vêm dar continuidade e profundidade de compreensão às revelações antigas.
V. Lau    


Porto Alegre (RS), agosto de 2006.
     (...) – A reencarnação sempre foi aceita entre as antigas religiões e os sacerdotes iniciados desde os tempos da antiga Suméria, e mais remotamente na extinta Atlântida. Entretanto, essa crença não era compartilhada pelos poderosos de todos os tempos, que achavam desconfortável a idéia de que poderiam vir a reencarnar, em uma vida futura, como mendigo ou escravo. Por esse e outros motivos, a reencarnação sempre ficou relegada ao universo restrito dos sábios e dos sacerdotes. A crença espiritual das múltiplas existências, além de ser um tema complexo, era naturalmente indigesta para aqueles que desejavam manter-se sempre no poder, mesmo que isso fizesse somente parte de uma fé religiosa.
     No âmbito do Cristianismo, depois do retorno de Jesus ao plano espiritual, por diversos anos os ensinamentos do grande rabi da Galiléia foram ensinados de acordo com o entendimento de diversas correntes.
     Uma delas era o grupo dos seguidores de Tiago, o irmão de Jesus, que entendia a mensagem de Jesus como a de um líder espiritual e humano para a libertação de Israel do jugo romano, idéia compartilhada por sua mãe. Tiago acreditava que a mensagem de Jesus era para os judeus, portanto todo aquele que desejasse ser um cristão deveria ser circuncidado e aceitar a religião judaica. Ele aceitava a mensagem filosófica de seu irmão, mas acreditava ser necessário utilizar-se de armas para libertar Israel. Para ele a mensagem era mais humana do que espiritual. Jesus era o messias “físico”, o libertador de Israel.
     Outro segmento importante era o conhecido como Gnosticismo (seita dos “gnósticos”), que se subdividia em diversas correntes internas. Nem todas possuíam uma mensagem coerente. Entretanto o seu segmento mais destacado era composto por verdadeiros filósofos que buscavam interpretar os ensinamentos do Mestre de acordo com a sua real profundidade. Eram em geral admiradores dos ensinamentos de Sócrates e Platão e procuravam conciliar esses ensinamentos com os do Cristo. Os “gnósticos” não acreditavam na divindade de Jesus, mas criam que ele era um grande instrutor da humanidade, e não o próprio Deus, como muitas das religiões cristãs hoje em dia crêem. Eles pregavam que todos deveriam aprender a mensagem de Jesus e evoluir com ela. Ou seja: a verdadeira busca da Luz, aquilo que procuramos hoje em dia para a construção de um novo modelo religioso. Para os gnósticos, Jesus era o professor, e não o Salvador. Não havia adoração religiosa, mas sim esclarecimento espiritual a partir da mensagem do Cristo.
     E, por fim, havia o principal segmento do Cristianismo nascente, que ficou conhecido como a corrente dos “paulinos”, ou seja, os seguidores de Paulo de Tarso (o apóstolo Paulo). Este segmento construiu a Igreja cristã tradicional como a conhecemos hoje. Os adeptos dessa corrente acreditavam que Jesus era o próprio Deus e que o sacrifício na cruz redimiria todos os pecados da humanidade. Em resumo: Jesus era o Salvador, e não o professor. A facção dos “paulinos” com o passar dos anos tornou-se fundamentalista e acusava todas as demais de serem hereges por ensinar conceitos que eles não aceitavam.
     Assim, com o passar dos anos, pouco a pouco, por causa de seu desconhecimento espiritual e interesses obscuros, os cristãos primitivos foram descartando os conceitos sobre a reencarnação do espírito e do carma, aceitos em todo o Oriente. Nas diversas traduções e recompilações dos textos, foi-se, paulatinamtne, trocando-se o sentido das palavras, adaptando-as ao entendimento daqueles que as traduziam, sempre com o objetivo de aproximá-las dos interesses daqueles que começavam a dar força à religião nascente. Os poderosos da época: a águia romana!
     Então, no século IV, durante o Concílio de Nicéia, em 325 d.C., o imperador Constantino oficializou o segmento dos “paulinos” como o “verdadeiro Cristianismo”. A partir daquele momento todos os demais segmentos foram perseguidos até serem extintos. Os “livros hereges” então foram destruídos sem piedade. Eis o primeiro capítulo de longos séculos de inquisição religiosa, que chegaria ao seu ápice na Idade Média.
     Assim, com o poder de polícia (apoio do império) obtido pelos paulinos (ortodoxos), em pouco tempo não existiam mais registros das correntes alternativas do Cristianismo, que terminaram caindo no esquecimento. Até que em 1945, em Nag Hammadi (Egito), foi encontrado um vaso de cerâmica que continha diversos evangelhos de outros discípulos de Jesus, que resgataram para a atualidade parte dos ensinamentos das demais correntes Cristãs. Esses Evangelhos hoje em dia são conhecidos como “apócrifos”, pois não são aceitos pela Igreja. Os da igreja tradicional são chamados de “canônicos”.
     Essa maravilhosa descoberta reacendeu o debate sobre o que é real dentro do Cristianismo como o conhecemos. Portanto, esse é mais um motivo para realizarmos debates sinceros pela busca da Verdade. O terceiro milênio não comporta mais frases feitas como: “a Bíblia é a própria palavra de Deus”. Como afirmamos isso se a Bíblia foi escrita por homens, e não por Deus? (...)
     “Universalismo Crístico”,  O futuro das religiões – Obra mediúnica orientada pelo espírito Hermes – Roger Bottini Paranhos . 1ª edição – 2007 Editora do Conhecimento.
João Pessoa (PB), 2009
     A Igreja Católica aceitava a reencarnação até o ano de 553 da nossa era

     O apóstolo Paulo falava várias vezes de um corpo espiritual, imponderável, incorruptível, (IEpist. Corintios, 15:44) e Orígenes, discípulo de São Clemente de Alexandria, em seus comentários sobre o Novo Testamento, afirma que esse corpo, dotado de uma virtude plástica, acompanha a alma em todas as suas existências e em todas as suas peregrinações, para penetrar e enfornar os corpos mais ou menos grosseiros e materiais que ela  reveste e que são necessários no exercício de suas diversas vidas.
     Orígenes e os pais alexandrinos, que sustentavam uns, a certeza, outros, a possibilidade de novas provas após a provação terrena, propunham a si mesmos a questão de saber qual o corpo que ressuscitaria no juízo final. Resolveram-na, atribuindo a ressurreição apenas ao corpo espiritual, como o fizeram Paulo e, mais tarde, o próprio Sto. Agostinho, figurando como incorruptíveis finos, tênues e soberanamente ágeis os corpos dos eleitos (Santo Agostinho – Manual – cap. XXVI)
     Orígenes afirmava ser a doutrina do Carma e do renascimento uma doutrina Cristã.
     Devido a esta crença, 299 (duzentos e noventa e nove) dias, após sua morte, contra ele a igreja decretou a excomunhão. O segundo Concílio de Constantinopla, no ano 553, decretou: “Todo aquele que defender a doutrina mística da preexistência da alma e a consequente assombrosa opinião de que ela retorna, seja anátema (sentença que excomunga)”.
     Até esta época, a doutrina do renascimento e do carma era aceita pela Igreja Cristã.

     A história do II Concílio de Constantinopla teve marcante acontecimento com a figura do imperador Justiniano, um teólogo, que queria saber mais teologia do que o papa. Justiniano tentou reinserir os monofisistas (Doutrina que reconhece uma só natureza em Jesus Cristo, a divina) no meio dos ortodoxos da igreja, pois temia que os monofisistas, comandados por Severo de Antioquia, se afastassem e voltassem-se para a Pérsia. Organizou no palácio a primeira conferência entre ortodoxos e monofisistas, para a qual convidou seis ortodoxos e seis monofisistas tentando definir as diferenças entre as doutrinas.
     O Papa, Vigílio, apesar de se encontrar em Constantinopla, recusou-se a participar do concílio convocado pelo imperador e tampouco se fez representar. O concílio pressionado pelo imperador excomungou o Papa. O Papa Vigílio acabou reconhecendo o concílio em troca da suspensão de sua excomunhão.
     A esposa de Justiniano chamada Teodora, teve muita influência nos assuntos do governo do marido e até no que se referiu à teologia. Foi ela quem acomodou os monges egípcios e os clérigos siríacos nos vários palácios da capital e, sobretudo, no palácio de Hormisdas, que se tornara o centro da propaganda monofisista.
    Por ter sido ela uma prostituta, suas ex-colegas se sentiam orgulhosas e decantavam tal honra. Mas esse fato a revoltava e se constituía numa desonra, fazendo com que mandasse matar todas as quinhentas prostitutas de Constantinopla.
     Os cristãos da época passaram a chamá-la de assassina e a dizer que deveria ser assassinada, quinhentas vezes, em vidas futuras. Este seria seu carma por ter mandado assassinar as suas quinhentas ex-colegas prostitutas.
     A partir daí, Teodora passou a odiar a doutrina da Reencarnação e como mandava e desmandava em meio mundo através do seu marido, resolveu partir para uma perseguição sem tréguas contra essa doutrina e contra o seu maior defensor que era Orígenes.
     O Concílio tratou de duas questões básicas: O Monofisismo e o Origenismo. O Origenismo defendia a apocatástase do universo (revolução periódica que reconduz os astros ao ponto de onde partiram) e a Reencarnação. O concílio condenou o Origenismo em termos claros e severos.
Tudo isso culminou com o que já citamos, acima, a condenação de Orígenes realizada pelo patriarca Menos e seus bispos em Constantinopla. (grifos e destaque, nossos)
Analisando as Traduções Bíblicas”- Professor Severino Celestino da Silva – Mundo Maior Editora


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A Lei da Reencarnação

Jerusalém Antiga
   Confrontando os relatos mediúnicos da atualidade com os relatos contidos na Bíblia podemos perceber duas coisas importantes, na forma que os evangelhos foram escritos. Primeiramente, durante os três anos do ministério de Jesus, nem sempre estavam junto com ele todos os doze discípulos. Segundo, cada discípulo que participou junto a Jesus fez suas anotações conforme sua perspectiva, daí as diferenças nos relatos dos evangelistas. No caso do episódio com Nicodemos há somente o registro bíblico efetuado por João; e, conforme relato de Humberto de Campos, quem estava acompanhando Jesus naquele momento era somente André e Tiago. Tudo indica que os dois discípulos após questionarem Jesus sobre aquele novo entendimento, acerca do ensinamento do “nascer de novo”, podem ter transmitido, através da tradição oral, a João que fez o registro posteriormente. Há também uma teoria feita pelos estudiosos bíblicos que alguns relatos que constam na bíblia não foram escritos pelos discípulos e sim pelos seus seguidores.
     Jesus disse a Nicodemos que para ver o Reino de Deus é preciso nascer de novo; e  como não há no registro bíblico uma explicação mais aprofundada sobre esta questão fica em aberto a  interpretação de forma livre.
     A interpretação mais sensata é admitir-se que “nascer de novo” refere-se, após a morte do corpo físico, a alma nascer em outro corpo físico; e, com a repetição deste processo, através da experiência poder evoluir e poder ver a luz do reino de Deus. Ao contrário, se formos interpretar que depois que o corpo envelhecer, o corpo tem que nascer de novo, vamos criar a mesma dúvida de Nicodemos. Uma terceira opção seria a de se entender que Jesus queria dizer que se o homem não se renovar, com uma postura nova perante a vida, não entraria no Reino de Deus.  Esta parece ser a opção melhor para aqueles que não querem admitir a possibilidade de um ser espiritual depois que morrer seu corpo físico nascer novamente em outro corpo físico.  No texto de Humberto de Campos Jesus explica de forma clara aos dois discípulos que a alma usa o corpo como uma roupagem, e após este não servir mais, devido ao seu desgaste, ela nasce em um novo corpo para adquirir outras experiências no seu caminhar. A alma, através deste processo de nascer e renascer em outros corpos físicos, aos poucos vai adquirindo uma luminosidade, decorrente das experiências positivas, que permitirá a ela sintonizar-se em dimensões com frequências mais elevadas, que é o "Reino de Deus".
     Em seguida, após compreender a explicação de Jesus, acima, o discípulo André questiona sobre o motivo de haver tanta diferença das roupagens das almas. Jesus explica que as almas que possuem corpos com deformações e em condições de sofrimentos estão em processo de resgate, por débitos contraídos em experiências encarnatórias anteriores. Justifica assim a necessidade da alma nascer e renascer novamente para depurar-se através de experiências diferentes.

V.Lau         



Fonte: Canal Mórmon

João 3
O Encontro com Nicodemos. 
 (1) Havia entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um notável entre os judeus.
(2) À noite ele veio encontrar Jesus e lhe disse: “Rabi, sabemos que vens da parte de Deus como mestre, pois ninguém pode fazer os sinais que fazes, se Deus não estiver com ele”.
(3) Jesus lhe respondeu:“Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”.
(4) Disse-lhe Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo já velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e nascer?”
 (5) Respondeu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer da água e do espírito não pode entrar no Reino de Deus.
(6) O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito.
(7) Não te admires de eu te haver dito: Vós deveis nascer de novo.
(8) O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito”.
(9) Perguntou-lhe Nicodemos: “Como isso pode acontecer?”
(10) Respondeu-lhe Jesus: “És o mestre de Israel e ignoras essas coisas? (...)

BÍBLIA DE JERUSALÉM – Nova edição, revista e ampliada. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. PAULUS – 2002 -  São Paulo.

Pedro Leopoldo (MG), novembro de 1940.

Espírito Humberto de Campos

      A Lição a Nicodemos    
     Em face dos novos ensinamentos de Jesus, todos os fariseus do templo se tomavam de inexcedíveis cuidados, pelo seu extremado apego aos textos antigos. O Mestre, porém, nunca perdeu ensejo de esclarecer as situações mais difíceis com a luz da Verdade que a sua palavra divina trazia ao pensamento do mundo. Grande número de doutores não conseguia ocultar o seu  descontentamento, porque, não obstante suas atividades derrotistas, continuavam as ações generosas de Jesus, beneficiando os aflitos e os sofredores. Discutiam-se os novos princípios, no grande templo de Jerusalém, nas suas praças públicas e nas sinagogas. Os mais humildes e pobres viam no Messias o Emissário de Deus, cujas mãos repartiam em abundância os bens da paz e da consolação. As personalidades importantes temiam-no.
     É que o Profeta não se deixava seduzir pelas grandes promessas que lhe faziam com referência ao seu futuro material. Jamais temperava a sua palavra de Verdade com as conveniências do comodismo da época. Apesar de magnânimo para com todas as faltas alheias, combatia o mal com tão intenso ardor, que para logo se fazia objeto de hostilidade para todas as intenções inconfessáveis. Mormente em Jerusalém que, com o seu cosmopolitismo, era um expressivo retrato do mundo, as ideias do Senhor acendiam as mais apaixonadas discussões. Eram populares que se entregavam à apologia franca da doutrina de Jesus, servos que o sentiam com todo o calor do coração reconhecido, sacerdotes que o combatiam abertamente, convencionalistas que não o toleravam, Indivíduos abastados que se insurgiam contra os seus ensinos.
     Todavia, sem embargo das dissensões naturais que precedem o estabelecimento definitivo das ideias novas, alguns Espíritos acompanhavam o Messias, tomados de vivo interesse pelos seus elevados princípios. Entre estes, figurava Nicodemos, fariseu notável pelo coração bem formado e pelos dotes da inteligência. Assim, uma noite, ao cabo de grandes preocupações e longos raciocínios, procurou a Jesus, em particular, seduzido pela magnanimidade de suas ações e pela grandeza de sua doutrina salvadora. O Messias estava acompanhado apenas de dois dos seus discípulos e recebeu a visita com a sua bondade costumeira.
     Após a saudação habitual e revelando as suas ânsias de conhecimento, depois de fundas meditações, Nicodemos dirigiu-se-lhe respeitoso:
     - Mestre, bem sabemos que vindes de Deus, pois somente com a luz da assistência divina poderíeis realizar o que tendes efetuado, mostrando o sinal do Céu em vossas mãos. Tenho empregado a minha existência em interpretar a lei, mas desejava receber a vossa palavra sobre os recursos de que deverei lançar mão para conhecer o Reino de Deus!
     O Mestre sorriu bondosamente e esclareceu:
     - Primeiro que tudo, Nicodemos, não basta que tenhas vivido a interpretar a lei. Antes de raciocinar sobre as suas disposições, deverias ter-lhe sentido os textos. Mas, em verdade, devo dizer-te que ninguém conhecerá o Reino do céu, sem nascer de novo.
     - Como pode um homem nascer de novo, sendo velho? – interrogou o fariseu, altamente surpreendido. – Poderá, porventura, regressar ao ventre de sua mãe?
     O Messias fixou nele os olhos calmos, consciente da gravidade do assunto em foco, e acrescentou:
     - Em verdade, reafirmo-te ser indispensável que o homem nasça e renasça, para conhecer plenamente a luz do Reino!...
     - Entretanto, como pode isso ser? – perguntou Nicodemos, perturbado.
     - És mestre em Israel e ignoras estas coisas? – inquiriu Jesus, como que surpreendido. – É natural que cada um somente testifique aquilo de que saiba; porém, precisamos considerar que tu ensinas. Apesar disso, não aceitas os nossos testemunhos. Se falando eu de coisas terrenas sentes dificuldades em compreendê-las com os teus raciocínios sobre a lei, como poderás aceitar as  minhas afirmativas quando eu disser das coisas celestiais? Seria loucura destinar os alimentos apropriados a um velho para o organismo frágil de uma criança.
     Extremamente confundido, retirou-se o fariseu, ficando André e Tiago empenhados em obter do Messias o necessário esclarecimento, acerca daquela lição nova.

     Jerusalém quase dormia sob o véu espesso da noite alta. Silêncio profundo se fizera sobre a cidade. Jesus, no entanto, e aqueles dois discípulos continuavam presos à conversação particular que haviam entabulado. Desejavam eles ardentemente penetrar o sentido oculto das palavras do Mestre. Como seria possível aquele renascimento? Não obstante os seus conhecimentos, também partilhavam da perplexidade que levara Nicodemos a se retirar fundamente surpreendido.
     - Por que tamanha admiração, em face destas verdades? – perguntou-lhes Jesus, bondosamente. – As árvores não renascem depois de podadas? Com respeito aos homens, o processo é diferente, mas o espírito de renovação é sempre o mesmo. O corpo é uma veste. O homem é seu dono. Toda roupagem material acaba rota, porém, o homem, que é filho de Deus, encontra sempre em seu amor os elementos necessários à mudança do vestuário. A morte do corpo é essa mudança indispensável, porque a alma caminhará sempre, por meio de outras experiências, até que consiga a imprescindível provisão de luz para a estrada definitiva no Reino de Deus, com toda a perfeição conquistada ao longo dos rudes caminhos.
     André sentiu que uma nova compreensão lhe felicitava o espírito simples e perguntou:
     - Mestre, já que o corpo é como que a roupa material das almas, por que não somos todos iguais no mundo? Vejo belos jovens, junto de aleijados e paralíticos...
     - Acaso não tenho ensinado- disse Jesus- que tem de chorar todo aquele que se transforma em instrumento de escândalo? Cada alma conduz consigo mesma o inferno ou o Céu que edificou no âmago da consciência. Seria justo conceder-se uma segunda veste mais perfeita e mais bela ao Espírito rebelde que estragou a primeira? Que diríamos da sabedoria de nosso Pai, se facultasse as possibilidades mais preciosas aos que as utilizaram na véspera para o roubo, o assassínio, a destruição? Os que abusaram da túnica da riqueza vestirão depois as dos fâmulos e escravos mais humildes, como as mãos que feriram podem vir a ser cortadas.
     Senhor, compreendo agora o mecanismo do resgate – murmurou Tiago, externando a alegria do seu entendimento. – Mas observo que, desse modo, o mundo precisará sempre do clima do escândalo e do sofrimento, desde que o devedor, para saldar seu débito, não poderá fazê-lo sem que outro lhe tome o lugar com a mesma dívida.
     O Mestre apreendeu a amplitude da objeção e esclareceu aos discípulos, perguntando:
     - Dentro da lei de Moisés, como se verifica o processo da redenção?
     Tiago meditou um instante e respondeu:
     - Também na lei está escrito que o homem pagará “olho por olho, dente por dente”.
     - Também tu, Tiago, estás procedendo como Nicodemos – replicou Jesus com generoso sorriso. – Como todos os homens, aliás, tens raciocinado, mas não tens sentido. Ainda não ponderaste, talvez, que o primeiro mandamento da Lei é uma determinação de amor. Acima do “não adulterarás”, do “não cobiçarás”, está o “amar a Deus sobre todas as coisas, de todo o coração e de todo o entendimento”. Como poderá alguém amar o Pai, aborrecendo-lhe a obra? Contudo, não estranho a exiguidade de visão espiritual com que examinaste o texto dos profetas. Todas as criaturas hão feito o mesmo. Investigando as revelações do Céu com o egoísmo que lhes é próprio, organizaram a justiça como o edifício mais alto do idealismo humano. E, entretanto, coloco o amor acima da justiça do mundo e tenho ensinado que  só ele  cobre a multidão dos pecados. Se nos prendermos à lei de talião, somos obrigados a reconhecer que onde existe um assassino haverá, mais tarde, um homem que necessita ser assassinado; com a lei do amor, porém, compreendemos que o verdugo e a vítima são dois irmãos, filhos de um mesmo Pai. Basta que ambos sintam isso para que a fraternidade divina afaste os fantasmas do escândalo e do sofrimento.

     Ante as elucidações do Mestre, os dois discípulos estavam maravilhados. Aquela lição profunda esclarecia-os para sempre.
     Tiago, então, aproximou-se e sugeriu a Jesus que proclamasse aquelas verdades novas na pregação do dia seguinte. O Mestre dirigiu-lhe um olhar de admiração e interrogou:
      - Será que não compreendeste? Pois, se um doutor da lei saiu daqui sem que eu lhe pudesse explicar toda a Verdade, como queres que proceda de modo contrário, para com a compreensão simplista do espírito popular? Alguém constrói uma casa iniciando pelo teto o trabalho? Além disso, mandarei mais tarde o Consolador, a fim de esclarecer e dilatar os meus ensinos.
      Eminentemente impressionados, André e Tiago calaram as derradeiras interrogações. Aquela palestra particular, entre o Senhor e os discípulos, permaneceria guardada na sombra leve da noite em Jerusalém, mas a lição a Nicodemos estava dada. A Lei da Reencarnação estava proclamada para sempre, no Evangelho do Reino.

BOA NOVA – pelo Espírito Humberto de Campos – psicografado por Francisco Cândido Xavier – 36. Ed. Brasília: FEB, 2013



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Primeiras Pregações

Em 1940, na cidade de Pedro Leopoldo, Minas Gerais, o Espírito Humberto de Campos, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, informou que nas dimensões vibratórias espirituais mais próximas da densidade terrena existem inúmeras escolas de aprendizado, e nelas aprende-se muito com os feitos abençoados, mas que são desconhecidos do registro histórico da humanidade na dimensão física. Na época de Jesus muito outros episódios ocorreram e não foram registrados na Bíblia. Para justificar a sua narrativa, ele cita dois trechos do evangelho que são: Marcos 4 (33) - “Anunciava-lhes a Palavra por meio de muitas parábolas como essas, conforme podiam entender; (34) e nada lhes falava a não ser em parábolas. A seus discípulos, porém, explicava tudo em particular.” ; João 21 (25) - “Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez. Se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam.” (Bíblia de Jerusalém)
     Com a narrativa  de Humberto de Campos podemos compreender, de uma forma mais ampla,  o desejo de Jesus e a dificuldade de compreensão dos seus discípulos e religiosos em relação a sua obra.
     Era de costume os Judeus fazerem peregrinações para Jerusalém para visitarem o Templo de Salomão, e os galileus eram reconhecidos pelo seu modo de se vestirem e seus cabelos compridos.      No diálogo com o Sacerdote Hanã podemos perceber o “orgulho intelectual” que apresentam todos aqueles que se submetem a um condicionamento religioso, sem desenvolverem uma compreensão e aceitação de outras maneiras de pensar.
     No momento do convite que Jesus fez a Simão e a André percebemos a simplicidade dos dois pescadores, sem muito entendimento quanto a proposta inicial de Jesus em relação à construção do Reino de Deus na Terra. Pelo diálogo demonstraram compreender que este  Reino seria na parte material,  com governantes e súditos, iguais aos que existiam na Terra. Com o passar do tempo é que foram entendendo que Jesus desejava construir o Reino dos Céus no coração dos seres humanos. A Boa Nova (Boa Notícia) que Jesus Trazia era a de uma doutrina consoladora endereçada a todos que com o coração puro e sincero aceitassem novos esclarecimentos, quanto à compreensão da vontade de Deus e o comportamento ideal para se ajustar às Suas Leis. O Reino de Deus no coração significa mudança no pensamento e no sentimento vivenciando-os através dos atos de verdadeira fraternidade. Jesus iniciou a sua doutrina consoladora e ela atravessou os milênios servindo como guia do nosso comportamento, para que pudéssemos compreender melhor o nosso processo evolutivo.
      Portanto, para a nossa evolução torna-se necessário vigiar nosso “orgulho intelectual” adquirido através das doutrinas religiosas; percebendo-se que o Reino de Deus é revelado de forma gradativa conforme nossa maturidade espiritual.
V.Lau


Mateus 4
Retorno à Galileia12 Ao ouvir que João havia sido preso, ele voltou para a Galileia 13 e, deixando Nazara, foi morar em Cafarnaum, à beira-mar, nos confins de Zabulon e Neftali, 14 para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: (Mc 1, 14-15 – Lc 4,14 – Jo 4, 1-3. 43-45 e 13, 53s)
15 Terra de Zabulon, terra de Neftali,
Caminho do mar, região além do Jordão,
Galileia das nações! (Is 8, 23 – 9,1  1Mc 5,15  Jo 7,52)
16 O povo que jazia nas trevas
Viu uma grande luz;
Aos que jaziam na região sombria da morte,
Surgiu uma luz.  (Lc 1,79s   Jo 8,12 + Rm 2,19)
17 A partir desse momento, começou Jesus a pregar e a dizer: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus” (3,2 + Dn 7,14)

Chamado dos quatro primeiros discípulos18 Estando ele a caminhar junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. 19 Disse-lhes: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. 20 Eles, deixando imediatamente as redes, o seguiram. (Mc 1,16-20  Lc 5, 1-11   Jo 1,35-42)

BÍBLIA DE JERUSALÉM – Nova edição, revista e ampliada. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. PAULUS – 2002 -  São Paulo.
 Mateus 4
Jesus volta para a Galileia (Mc 1.14-15; Lc4.14-15)
12 Ouvindo, porém, Jesus que João fora preso, retirou-se para a Galileia;
13 e, deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum, situada à beira-mar,  nos confins de Zebulom e Naftali;
14 para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías:
15 Terra de Zebulom, terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galiléia dos gentios!
16 O povo que jazia em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região e sombra da morte resplandeceu-lhes a luz.
17 Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrempendei-vos, porque está próximo o reino dos céus.
A vocação de discípulos (Mc 1.16-20; Lc 5.1-11)
18 Caminhando junto ao mar da Galiléia, viu dois irmão, Simão, chamado Pedro, e André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores.
19 E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.
20 Então, eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram.

BÍBLIA SAGRADA – Antigo e Novo Testamento – Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2 ed. Barueri –SP: Sociedade Biblica do Brasil, 2008.


Pedro  Leopoldo (MG), novembro de 1940

Espírito Humberto de Campos

PRIMEIRAS PREGAÇÕES
     Nos primeiros dias do ano 30, antes de suas gloriosas manifestações, avistou-se Jesus com o Batista, no deserto triste da Judeia, não muito longe das areias ardentes da Arábia. Ambos estiveram juntos, por alguns dias, em plena natureza, no campo ríspido do jejum e da penitência do grande precursor, até que o Mestre divino, despedindo-se do companheiro, demandou o oásis de Jericó, uma bênção de verdura e água, entre as inclemências da estrada agreste. De Jericó dirigiu-se então a Jerusalém, onde repousou, ao cair da noite.
    Sentado como um peregrino, nas adjacências do templo, Jesus foi notado por um grupo de sacerdotes e pensadores ociosos, que se sentiram atraídos pelos seus traços de formosa originalidade e pelo seu olhar lúcido e profundo. Alguns deles se afastaram, sem maior interesse, mas Hanã, que seria, mais tarde, o juiz inclemente de sua causa, aproximou-se do desconhecido e dirigiu-se lhe com o orgulho:
     - Galileu, que fazes na cidade?
     - Passo por Jerusalém, buscando a fundação do Reino de Deus – exclamou o Cristo, com modesta nobreza.
     - Reino de Deus? – tornou o sacerdote com acentuada ironia. – E que pensas tu venha a ser isso?
     - Esse Reino é a obra divina no coração dos homens! – esclareceu Jesus, com grande serenidade.
     - Obra divina em tuas mãos? – revidou Hanã, com uma gargalhada de desprezo.
     E, continuando as suas observações irônicas, perguntou: Quais são os teus seguidores e companheiros? ... Acaso terás conquistado o apoio de algum príncipe desconhecido e ilustre, para auxiliar-te na execução de teus planos?
     Meus companheiros hão de chegar de todos os lugares – respondeu o Mestre com humildade.
    - Sim – observou Hanã -, os ignorantes e os tolos estão em tua edificação. Entretanto, propões-te realizar uma obra divina e já viste alguma estátua perfeita modelada em fragmentos de lama?
    - Sacerdote – replicou-lhe Jesus, com energia serena -, nenhum mármore existe mais puro e mais formoso do que o do sentimento, e nenhum cinzel é superior ao da boa vontade sincera.
     Impressionado com a resposta firme e inteligente, o famoso juiz ainda interrogou:
    - Conheces Roma ou Atenas?
    - Conheço o Amor e a Verdade – disse Jesus convictamente.
    - Tens ciência dos códigos da Corte Provincial e das leis do Templo? – inquiriu Hanã, inquieto.
    - Sei qual é a vontade de meu Pai que está nos céus – respondeu o Mestre, brandamente.
    O sacerdote o contemplou irritado e, dirigindo-lhe um sorriso de profundo desprezo, demandou a Torre Antônia, em atitude de orgulhosa superioridade.
     No dia seguinte, pela manhã, o mesmo formoso peregrino foi ainda visto a contemplar as maravilhas do santuário, antes alguns minutos de internar-se pelas estradas banhadas de sol, a caminho de sua Galileia distante.


     Daí a algum tempo, depois de haver passado por Nazaré, descansando igualmente em Canã, Jesus se encontrava nas circunvizinhanças da cidadezinha de Cafarnaum, como se procurasse, com viva atenção, algum amigo que estivesse à sua espera.
    Em breves instantes, ganhou as margens do Tiberíades e se dirigiu, resolutamente, a um grupo alegre de pescadores, como se, de antemão, os conhecesse a todos.
     A manhã era bela, no seu manto diáfano de radiosas neblinas. As águas transparentes vinham beijar os eloendros da praia, com se brincassem ao sopro das virações perfumadas da Natureza. Os pescadores entoavam uma cantiga rude e, dispondo inteligentemente as barcaças móveis, deitavam as redes, em meio a profunda alegria.
     Jesus aproximou-se do grupo e, assim que dois deles desembarcaram em terra, falou-lhes com amizade:
     - Simão e André, filhos de Jonas, venho da parte de Deus e vos convido a trabalhar pela instituição de seu Reino na Terra!
     André lembrava-se de já o ter visto, nas cercanias de Betsaida,  e do que lhe haviam dito a seu respeito, enquanto Simão, embora agradavelmente surpreendido, o contemplava enleado. No entanto, quase a um só tempo, dando expansão aos seus temperamentos acolhedores e sinceros, exclamaram respeitosamente:
    - Sede bem-vindo!...
    Jesus então lhes falou docemente do Evangelho, com o olhar incendido de júbilos divinos.
    Estando muitos outros companheiros do lago a observar de longe os três, André, manifestando a sua tocante ingenuidade, exclamou comovido:
     - Um rei? Mas em Cafarnaum existem tão poucas casas!...
    Ao que Pedro obtemperou, como se a boa vontade devesse suprir todas as deficiências:
    - O lago é muito grande e há várias aldeias circundando estas águas. O Reino poderá abrange-las todas!
    Isso dizendo, fixou em Jesus o olhar perquiridor, como se fora uma grande criança meiga e sincera, desejosa de demonstrar compreensão e bondade. O Senhor esboçou um sorriso sereno e, como se adiasse com prazer as suas explicações para mais tarde, inquiriu generosamente:
    - Quereis ser meus discípulos?
    André e Simão se interrogaram a si mesmos, permutando sentimentos de admiração embevecida. Refletia Pedro: que homem seria aquele? Onde já lhe escutara o timbre carinhoso da voz íntima e familiar? Ambos os pescadores se esforçavam por dilatar o domínio de suas lembranças, de modo a encontra-lo nas recordações mais queridas. Não sabiam, porém, como explicar aquela fonte de confiança e de amor que lhes brotava no âmago do espírito e, sem hesitarem, sem uma sombra de dúvida, responderam simultaneamente:
     - Senhor, seguiremos os teus passos.
     Jesus os abraçou com imensa ternura e, como os demais companheiros se mostrassem admirados e trocassem entre si ditérios ridicularizadores, o Mestre, acompanhado de ambos e de grande grupo de curiosos, se encaminhou para o centro de Cafarnaum, na qual se erguia a Intendência de Ântipas. Entrou calmamente na coletoria e, avistando um funcionário culto, conhecido publicano da cidade, perguntou-lhe:
    - Que fazes tu, Levi?
    O interpelado fixou-o com surpresa; mas, seduzido pelo suave magnetismo de seu olhar, respondeu sem demora:
    - Recolho os impostos do povo, devidos a Herodes.
    - Queres vir comigo para recolher os bens do Céu? – perguntou-lhe Jesus, com firmeza e doçura.
    Levi, que seria mais tarde o apóstolo Mateus, sem que pudesse definir as santas emoções que lhe dominaram a alma, atendeu, comovido:
     - Senhor, estou pronto!...
     -Então, vamos- disse Jesus, abraçando-o.
     Em seguida, o numeroso grupo se dirigiu para a casa de Simão Pedro, que oferecera ao Messias acolhida sincera em sua residência humilde, onde o Cristo fez a primeira exposição de sua consoladora doutrina, esclarecendo que a adesão desejada era a do coração sincero e puro, para sempre, às claridades do seu Reino. Iniciou-se naquele instante a eterna união dos inseparáveis companheiros.


     Na tarde desse mesmo dia, o Mestre fez a primeira pregação da Boa Nova na praça ampla, cercada de verdura e situada naturalmente junto às águas.
     No céu, vibravam harmonias vespertinas, como se a tarde possuísse também uma alma sensível. As árvores vizinhas acenavam os ramos verdes ao vento do crepúsculo, com mãos da Natureza que convidassem os homens à celebração daquele primeiro ágape. As aves ariscas pousavam de leve nas alcaparreiras mais próximas, como se também desejassem senti-lo, e na praia extensa se acotovelava a grande multidão de pescadores rústicos, de mulheres aflitas por continuadas flagelações, de crianças sujas e abandonadas, misturados publicanos pecadores com homens analfabetos e simples, que haviam acorrido, ansiosos por ouvi-lo.
    Jesus contemplou a multidão e enviou-lhe um sorriso de satisfação. Contrariamente às ironias de Hanã, Ele aproveitaria o sentimento como mármore precioso e a boa vontade como cinzel divino. Os ignorantes do mundo, os fracos, os sofredores, os desalentados, os doentes e os pecadores seriam em suas mãos o material de base para a sua construção eterna e sublime. Converteria toda a miséria e toda dor num cântico de alegria e, tomado pelas inspirações sagradas de Deus, começou a falar da maravilhosa beleza do seu Reino. Magnetizado pelo seu amor, o povo o escutava num grande transporte de ventura. No céu havia uma vibração de claridade desconhecida.
     Ao longe, no firmamento de Cafarnaum, o horizonte se tornara um deslumbramento de luz e, bem no alto, na cúpula dourada e silenciosa, as nuvens delicadas e alvas tomavam a forma suave das flores e dos arcanjos do Paraíso.
Boa Nova” – pelo Espírito Humberto de Campos – psicografado por Francisco Cândido Xavier –FEB 2013.